quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O que falta?

Da janela do ônibus eu assisto diariamente à pobreza das pessoas da minha cidade. Vida indigna. Vida de animal. Vida miserável. Ouço também com a mesma leveza de discurso de uma conversa sobre o que se comeu no almoço o relato de pessoas que foram roubadas; de amigos ou conhecidos que foram assassinados depois de roubo. E as pessoas sempre dizem: "mas 'tá ficando impossível, hein! Cada vez mais perigoso!" No coletivo, um sujeito maltrapilho, desgraçado mesmo na vida, sobe aos trancos e barrancos no estressado ônibus e tenta vender honestamente uma balinha por dez centavos. No bairro onde ele mora ou perto dali devem morar traficantes que criam ao redor de si uma área de assaltos, assassinatos, destruição de famílias dos envolvidos diretamente nas drogas e de outros que cruzam o seu caminho.
Alguém olha para aquele sujeito maltrapilho com desprezo, porque de fato o homem está bem sujo, maltratado, abaixo do peso (ele deve passar muita fome às vezes) em razão da batalha pela sobrevivência. E aí vem um político de terno e gravata, em traje muito bonito, envolvido em caso de corrupção, em seu carrão bonito e cheiroso. A sua figura, sua roupa, seu carro, seu olhar decidido, sua tranqüilidade, sua postura, o respeito de seus subalternos imediatos é bonito de se ver. Sentimo-nos confortáveis em observar aquilo. Não dói tanto quanto ter um guerreiro honesto do dia-a-dia suado e fétido que nem um gambá na sua frente. Ele é desprezível, essa figura.
E olha só. Quem é o culpado deste guerreiro cotidiano passar fome? Ele o fez por merecer? Ele foi desonesto? Ele foi arrogante? E o político? Aquele envolvido em casos de corrupção. Ele tem algo a ver (responda para você mesmo)? Existe Faculdade do Governador? Alguém obtém diploma para ser deputado? Não. Então o guerreiro de mau-cheiro tem a mesma capacidade para estar lá. Qualquer pessoa tem. E por que o político está bem, satisfeito, enquanto o pobre mulambento está passando fome (passar fome é ruim, experimente brincar de ficar sem comer, só por experiência, depois coma toda a abundância que o seu dinheiro lhe dá o direito de comprar)?
Essa vida é só uma. Alguns entram para o crime de tráfego e assaltos porque acreditam que a vida é muito passageira e que eles não têm outra maneira de viver um pouco melhor. O cara honesto do ônibus, ele tem motivo para querer continuar a viver nessa fome, nesse sofrimento, nesse martírio? O que lhe falta para tomar uma atitude como a do assaltante, mas preservando a sua honestidade? O que lhe falta para dedicar a sua vida a tirar aquele político da sua posição imérita?
O que falta para ele exigir até as últimas circunstâncias que nenhum espertinho roube, através da corrupção política, o seu dinheiro conquistado com tanto sacrifício e doado tão resignadamente ao Estado através de impostos? O que falta?




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