Alguém olha para aquele sujeito maltrapilho com desprezo, porque de fato o homem está bem sujo, maltratado, abaixo do peso (ele deve passar muita fome às vezes) em razão da batalha pela sobrevivência. E aí vem um político de terno e gravata, em traje muito bonito, envolvido em caso de corrupção, em seu carrão bonito e cheiroso. A sua figura, sua roupa, seu carro, seu olhar decidido, sua tranqüilidade, sua postura, o respeito de seus subalternos imediatos é bonito de se ver. Sentimo-nos confortáveis em observar aquilo. Não dói tanto quanto ter um guerreiro honesto do dia-a-dia suado e fétido que nem um gambá na sua frente. Ele é desprezível, essa figura.
E olha só. Quem é o culpado deste guerreiro cotidiano passar fome? Ele o fez por merecer? Ele foi desonesto? Ele foi arrogante? E o político? Aquele envolvido em casos de corrupção. Ele tem algo a ver (responda para você mesmo)? Existe Faculdade do Governador? Alguém obtém diploma para ser deputado? Não. Então o guerreiro de mau-cheiro tem a mesma capacidade para estar lá. Qualquer pessoa tem. E por que o político está bem, satisfeito, enquanto o pobre mulambento está passando fome (passar fome é ruim, experimente brincar de ficar sem comer, só por experiência, depois coma toda a abundância que o seu dinheiro lhe dá o direito de comprar)?
Essa vida é só uma. Alguns entram para o crime de tráfego e assaltos porque acreditam que a vida é muito passageira e que eles não têm outra maneira de viver um pouco melhor. O cara honesto do ônibus, ele tem motivo para querer continuar a viver nessa fome, nesse sofrimento, nesse martírio? O que lhe falta para tomar uma atitude como a do assaltante, mas preservando a sua honestidade? O que lhe falta para dedicar a sua vida a tirar aquele político da sua posição imérita?
O que falta para ele exigir até as últimas circunstâncias que nenhum espertinho roube, através da corrupção política, o seu dinheiro conquistado com tanto sacrifício e doado tão resignadamente ao Estado através de impostos? O que falta?
Nenhum comentário:
Postar um comentário