Na 3iL as férias vêm em fatias. Uma delas é esta semana. Aproveitei a oportunidade para fazer uma visita a ela e conhecer -- finalmente -- a terra, segundo Wolfgang Menzel, dos pensadores e poetas.
Então como combinado, na quinta-feira, depois de tomar como café da manhã o resto do último jantar (eu não queria estragar e também não queria demorar muito), ainda escuro de manhã, embra já fossem cerca de sete e meia, eu rumei em direção à Gare de Limoges para adentrar uma maratona de viagens e trocas de trens entre França e Alemanha. Estava frio e escuro, mas a cidade já estava bem acordada e os carros, fumegando por causa do frio e umidade, iluminavam ainda mais as ruas. Mesmo que eu tivesse o bilhete da viagem para Paris em mãos, eu não sabia exatamente a quem o apresentar ou qual procedimento fazer antes de entrar no trem. Perguntei a um cara que parecia não ser francês e ela não soube me responder. Vi uma maquininha onde alguém antes tinha colocado o bilhete antes, mas não sabia se eu também deveria fazer o mesmo ou configurar algo antes ou em que posição meter o bilhete. Perguntei a um outro cara, que também ia fazer o mesmo procedimento e ele me mostrou como fazer, ao colocar o seu bilhete na máquina. Depois eu fiz, e tudo o que aconteceu foi que um registro foi impresso no bilhete.
Isto só era o começo de uma série de dúvidas que iam surgir ainda no desenrolar das trocas de trens. Era a minha primeira viagem de trem. Percebi que ele andava bastante rapidamente, claro, já que não havia nenhum obstáculos ao longo dos trilhos, como é o caso com uma estrada. E, por isso, muitas vezes não conseguia olhar para a paisagem próxima, pois meus olhos não aguentavam acompanhar a rapidez do trem, no que isso era uma tortura para os olhos.
Eu estava realmente bastante feliz com aquela viagem. No trem, algumas pessoas liam um jornal ou um livro enquanto outras conversavam, dormiam ou comiam: um comportamento bem natural para mim. O trem parava em algumas cidades. Finalmente quando estávamos próximos de Paris, eu vi uma porção de aerogeradores, com suas hélices gigantes. Chegamos a Paris e eu não sabia como pegar o próximo trem, que sairia 1h25min depois de chegarmos. Após dar uma olhada nos lugares, procurando por algum balcão de informações, encontrei um de onde o recepcionista me falou, após olhar o meu bilhete, que eu deveria ir à gare de l'Est. Peguei o mêtro e cheguei lá com apenas alguns minutos para saber em que via eu ia pegar o trem; almoçar e talvez trocar alguns reais que não tinha trocado no Brasil. Dei uma volta e perguntei a uma moça do balcão de informações onde eu poderia encontrar uma loja de câmbio. Saí da Gare e cruzei a rua para tentar trocar o dinheiro. Mas, a taxa que eles cobravam pela conversão me tirava resultava em cerca de 5 reais cada euro! Eu não pude aceitar. Saí e dei uma olhada ao redor a fim de procurar um lugar onde eu pudesse almoçar. Eu pensei que não daria tempo de qualquer maneira, já que, além de tudo, eu demoro para comer. Resolvi então comer no Quick, uma rede de fast-food bem conhecida na França. Comprei um Mix'N Fish e, antes de dar a primeira dentada no lanche, olhei para o relógio do celular e faltava pouco menos de meia hora para a partida do trem. Ainda nos ultimos pedaços do sanduíche, eu verifiquei mais uma vez o horário e vi que so faltava cerca de dez minutos para a saida do trem e eu nem tinha terminado de comer o lanche. Comecei a mastigar freneticamente, coloquei na boca o resto do lanche e fui mastigando no caminho, enquanto eu andava a passos largos e rápidos com uma mala de rodinhas e uma maleta pesada a tira-colo. Quando cheguei na Gare, comecei a correr e correr. Eu já sabia a qual via eu deveria ir e vi o trem da Deutsche Bahn já parado lá e poucas gentes ainda entravam nele. Eu cheguei com a comissária que esperava lá fora e ela já perguntou pelo meu bilhete em alemão. Eu lhe mostrei e ela me indicou -- inutilmente, pois eu já sabia -- onde eu deveria me sentar. O trem era bem mais confortável do que o que peguei na França, mas parecia mais lento também. Na viagem, um fiscal ainda passou pelos corredores, pedindo alguns documentos de alguns passageiros e chegou ainda a revistar o alemão que sentava ao meu lado. Mas, ainda bem, nem me pediu nada.
Aquela viagem foi um pouco mais longa e eu percebi alguma diferença no comportamento dos viajantes. Do meu lado, atravessando o estreito corredor, estava uma família. O pai jogava com a sua filhinha, sobre a mesa que separava os pares de assentos virados uns para os outros, um jogo de cartas com algumas figuras de animais, que não era jogo da memória, mas um jogo que não conheço. Na minha frente, uma moça lia vidradamente um livro chamado Anonyma - Eine Frau in Berlin -- quando eu cheguei em Leipzig, vi algumas propagandas suas pela cidade, portanto se trata do "livro da moda" -- e ao seu lado um homem dormia. A viagem correu perfeitamente. Quando cheguei em Frankfurt, finalmente, eu deveria pegar o trem para Leipzig mas o bilhete não dava muitas informações. Abordei um ferroviário que me disse em que via eu deveria esperar o trem. Fiquei lá esperando o trem naquele clima mais frio do que na França e já um pouco cansado. Quando o trem chegou, não encontrei o meu vagão e, como já estava em cima da hora e as pessoas entravam desapressadamente no trem, eu entrei em qualquer porta para garantir que eu viajaria e em um ou dois minutos o trem partiu. Dentro dele, havia muita gente que ainda não se tinha sentado e eu comecei a andar rumo a qualquer lugar com o meu número. Fiquei emperrado ao me confrontar com uma moça que vinha na outra direção do corredor, pois o corredor era muito estreito. Ela me perguntou qual era o meu número de assento, para que saíssemos daquela situação, e eu disse qual era, apontando adicionalmente para o número no meu bilhete. Ela disse então que eu não poderia me sentar por ali, porque o vagão em que eu tinha entrado era o errado e ela disse que nem ela podia ficar naquele vagão e, assim, também deveria sair. Eu fiquei meio embaraçado com toda aquela agonia e com uma mala que mal passava pelo corredor pequeno enquanto havia gente no corredor na minha frente e atrás de mim querendo passar. Pedi licença e fui passando, e as pessoas se incomodando, e eu suando, um grupo de amigas que também estava em pé começou a rir -- eu não sabia se era de mim ou de um assunto que já se desenrolava antes. Eu sabia que havia alguma coisa de errada naquilo tudo, porque havia muitas pessoas em pé e isso não deveria ser normal. Consegui ficar espremido num lugarzinho do corredor por alguns minutos enquanto quem queria passar passava e quem não queria ficava em pé como eu. Nesses minutos, um cara de terno e gravata se levantou do seu assento e deu lugar a outra pessoa, provavelmente o ocupante legítimo daquele lugar. O cara ficou em pé, com um terno sobre o braço cuja mão segurava um livro que ele insistia em continuar lendo em pé, enquanto se apoiava com a outra mão em alguma parte de cima do bagageiro, enquanto havia pessoas na sua frente e atrás. Eu olhava ao meu redor e praticamente todos que estavam sentados estavam lendo alguma coisa ou fazendo uma palavra cruzada ou jogando sudoku, mas, enfim, irriquietos, enquanto eu estava agoniado naquela situação. Quando o clima se estabilizou um pouco mais, eu decidi sair com a minha mala para uma parte que divide os vagões e que não tem assentos, sendo, portanto, mais ampla. Ainda lá havia pessoas. Um cara ia na porta, conversando com dois rapazes. No chão, sentados, um ao lado do outro, jovens liam livros e tornavam difícil o acesso ao outro vagão, e uma senhora que chegou depois sentou-se sobre sua mala e sacou um romance para ler durante a viagem.
Eu suava, com um casaco, e apoiava minha mala, suspendendo um pouco com a mão a minha maleta e pressionando-a contra meu corpo, mesmo que eu a estivesse usando a tira-colo, com cuidado para que as suas alças não cedessem ao peso excessivo que ela carregava. Consegui um cantinho legal para colocar minhas malas e me livrei delas, restando-me só me preocupar em me manter em pé. Não havia um lugarzinho para eu me sentar. Fiquei no portão do vagão suando e já com uma dor-de-cabeça que aumentava. E a noite já tinha chegado. Cada vez mais eu ia me sentindo mais estressado e resolvi comprar uma água no bistrô do trem, que eu acho muito cara, mas eu tinha de fazer aquilo. Tomar a água certamente me fez bem. E retornei ao meu lugar como um vigilante retorna a sua guarita. E assim a viagem continuava. Eu acompanhava o mapa de bordo e íamos passando e parando em várias cidades. Leipzig ainda estava tão longe. Perto de Weimar eu já me sentia esgotado e uma senhora saiu de seu lugar para descer. Eu perguntei a ela se eu podia ocupar seu lugar e ela disse que sim. Só faltavam mais duas cidades antes de chegarmos a Leipzig e eu não aguentava mais ficar naquele trem, e começava a sentir náuseas. Finalmente quando chegamos a Leipzig eu estava feliz, apesar de todo esse sofrimento. Desci do trem e estava muito frio, um frio que eu ainda não tinha experimentado em Limoges. Procurei um pouco e eu a achei, sorrindo, ao meu encontro. Logo melhorei.
"Die Deutschen thun nicht viel, aber sie schreiben desto mehr. [...] Das sinnige deutsche Volk liebt es zu denken und zu dichten, und zum Schreiben hat es immer Zeit. Es hat sich die Buchdruckerkunst selbst erfunden, und nun arbeitet es unermüdlich an der großen Maschine. [...] Was wir in der einen Hand haben mögen, in der anderen Hand haben wir immer ein Buch" (Menzel 1828/1836).
"Enquanto os alemães não fazem muito, eles escrevem em compensação muito mais. [...] O inteligente povo alemão adora pensar e fazer poesia, e para escrever há sempre tempo. Ele mesmo criou a prensa e agora trabalha incansavelmente na grande máquina. [...] Não importa o que nós podemos ter numa mão; na outra, temos sempre um livro" (W. Menzel 1828/1836)
(retirado da Wikipedia)