
Esses dez dias que passei na Alemanha são inesquecíveis. Foi sobretudo um período de reflexão. No momento da partida, ficou a minha vontade de ficar mais um pouquinho, mas a determinação de que já era hora de voltar.
O trem para Frankfurt foi muito bem, nada da confusão do último trem que peguei para chegar a Leipzig, que naquele momento se deu em decorrência da retirada de muitos vagões para revisão de segurança.
Se o tempo era um pouco nublado e com neblina no começo do dia, pela tarde, durante a viagem, o sol apareceu e iluminou as campanhas que se podiam ver pela janela. A cada cidade em que o trem parava, o maquinista pedia desculpas pelos atrasos. Finalmente, quase chegando a Frankfurt, mais uma vez o maquinista anunciou a chegada e, segundo entendi, ele ainda informou que os passageiros que fariam conexão com Paris, trem que sairia às 16:58,
deveriam esperar até às 18:00 por causa -- muito provavelmente -- do atraso do trem atual.
Na chegada, desci tranquilamente do trem e fui com a mesma calma atrás de uma tabela com os horários das partidas do dia. Localizei o trem para Paris e vi que a sua plataforma era a 18. Comecei a procurar, então, enquanto andava para sair da plataforma em que eu estava, algum ferroviário que pudesse me dizer onde ficava a 18. Achei dois que conversavam à porta do trem de que eu cheguei e lhes perguntei como chegar lá. Segui as suas instruções e, quando cheguei na plataforma 18, indicada por um painel eletrônico posicionado em cima da sua entrada, li
"Paris - l'Est". Dei um passo. No segundo passo o trem suavemente começou a partir. Por alguns instantes minha mente ficou completamente confusa, sem saber se aquele trem era o meu ou se era algum trem que já estava lá há algum tempo e tinha partido para dar lugar ao trem em que eu embarcaria mais tarde -- teria eu entendido mal a mensagem do maquinista?! Ora, ele disse 18, mas era a plataforma e não o horário! Só podia ser! Ou não? Na plataforma, só havia uma senhora com uma criança que brincava em cima de um carrinho de bagagens. Cheio de esperança de encontrar uma resposta acalentadora, perguntei se ela sabia para onde aquele trem tinha partido. Ela me respondeu que não sabia. Mas o que fazia uma pessoa lá sem saber para onde o trem ia?! Eu me perguntava silenciosamente. Ela continuou, olhando para cima para o painel eletrônico, agora atrás de mim: "Talvez a Paris, não sei". Eu olhei para trás e não vi mais nada escrito além do número da plataforma, andei, suando frio, para a frente da plataforma e na frente do painel também o destino "Paris - L'Est" tinha sumido. Sem querer acreditar naquilo, saquei o celular para ver as horas. Eram 17:02. De acordo com o bilhete, o trem deveria ter partido às 16:58... Não restavam dúvidas: eu tinha perdido o trem. Alguns instantes sem nada na mente, a não ser o ruído da multidão, e a imagem do painel que os meus olhos incrédulos fixavam com teimosia.
Primeira coisa à mente: "vou voltar ainda hoje, custe o que custar". Segunda coisa: "Vou procurar um balcão de informações".
Encontrei o balcão. Falei a situação à atendente, através do meu alemão enferrujado, mas já um pouco polido depois de dez dias de tentativas de readaptação -- o mesmo alemão enferrujado que, por causa do mal-entendimento do recado do maquinista, me custou esse contratempo. Como o trem do qual eu cheguei estava atrasado, consegui um pedido assinado por ela de um reagendamento de viagem para as 19:01. Fui à central de viagens (Reisezentral). Entreguei o pedido, obtive o reagendamento sem problemas. Agora eu tinha ainda uma hora e alguns minutos
em Frankfurt. Resolvi procurar trocar o dinheiro em reais, mas a taxa ainda era desfavorável. Desisti. Então me restou dar uma volta em torno do Hauptbahnhof (terminal principal). Logo pude ver alguns prédios imensos do centro financeiro da Alemanha. Fiquei, como diz-se em Belém, patetando lá fora, parado, com uma mala grande e uma maleta. Como me ocorreu nas cidades grandes por onde passei (Paris e Berlin), um cara meio alto veio me pedir dinheiro em alemão. Para escapar, eu fingi que não sabia falar alemão; que eu não estava entendendo, dizendo em inglês "sorry, I don't understand..." Pois ele me pediu em inglês. E um inglês falado de uma maneira errada, mas que demostrava um conhecimento tal da estrutura da língua para tentar inventar uma palavra a partir de derivação verbal usando o gerúndio: "eating" na tentativa de dizer "alimentation". Pasmo, neguei outra vez, e ele se foi. Reentrei na estação, meio intimidado, e fui dar uma volta dentro dela. Achei uma livraria e entrei. Fiquei lá até poucos minutos antes de o trem sair. Embarquei no trem aliviado. A viagem foi na paz.
Cheguei em Paris às 22:40, louco para ir logo trocar a minha passagem do trem para Limoges, mas na estação Austerlitz parecia não haver mais quase ninguém além de nós, que desembarcávamos. Todas as lojas fechadas. Comecei a andar apressado, com medo de que o balcão de informações pudesse também estar fechado. Descendo alguns degraus avistei um balcão de informações. Fechado. Olhei para trás, e lá havia outro, com um atendente apenas e uma fila aparentemente intimidante para quem estava com tanta pressa. Quando chegou a minha vez, eu falei sobre a minha situação, sentido o meu francês como uma comida gelada que se retoma após ter sido interrompido por algo inesperado durante a refeição. Ele me disse que eu deveria resolver isso na Gare de l'Est e para isso eu deveria comprar a passagem do mêtro com ele. O mêtro de Paris é algo estranho. Você sabe que naqueles bancos passa gente do mundo inteiro todo tempo. E são pessoas com os mais variados rostos.
Chegando na estação l'Est, de onde eu vim para ir à Alemanha, eu logo fui ao balcão de informações correndo, fazendo o trajeto inverso de quando eu cheguei na estação na ida à Alemanha, sem saber se a sala estaria aberta ou não. Ainda bem, ela estava, mas, sem contar a recepcionista e o segurança, não havia ninguém. Falei a ela da minha situação. Aí veio a
resposta decisiva: viagens a Limoges só a partir do outro dia, sendo a primeira às 06:41. Fim da linha.
Eu tinha que passar a noite em Paris. Mas onde? Tenho alguns conhecidos de Eng. Mecânica em Paris da UFPA que estão no mesmo projeto de cooperação que eu, mas eu nem tinha os números deles no meu celular, nem em lugar nenhum. Eu não estava preparado para isso. Eu e o Walber conhecemos por email um ex-aluno da 3iL que entrou em contato conosco quando estávamos no Brasil e que mora em Paris, mas eu também não tinha registrado o número dele no celular. Eu me senti um pouco imbecil de não ter me precavido para isso, mas, pronto, também não se pode contar com tudo e assim se aprende a não errar de novo, sempre. Eu tinha
que achar algum lugar o mais barato possível só para dormir aquela noite. Perguntei à mulher onde eu podia ficar e ela disse que havia hotéis a preços acessíveis perto da Gare de Lyon. Ela me olhou compadecidamente e perguntou se eu não queria passar a noite na sala de espera. Eu disse que sim. Bom, pernoitar lá não seria de todo mal, pensei. Além do mais, para sair às 06:41, antes não arriscar se perder no caminho ou demorar ou algo assim e piorar a situação. Fui à sala de espera e mais tarde ela me trouxe uma garrafa de água e, depois, uma caixa de refeição própria para esses casos de espera prolongada. Comia e pensava que tudo o que eu tinha de fazer depois era me sentar numa cadeira detrás do fino biombo fumé que ficava no fim da sala (a sala de espera e o serviço de informações têm paredes de vidro) e relaxar, tentando dormir para logo mais tarde estar finalmente voltando para casa.
Depois dos incômodos do cara da limpeza, que ficou calado mas precisou de todo o espaço do lugar, e dos seguranças africanos que falavam alto e entraram na sala para medir a parede com um aparente objetivo de constatar alguma coisa da sua discussão pessoal, eu fiquei sozinho e a mulher, antes de ir embora, desligou as luzes da sala.
Começou a fazer frio. Vesti o casaco, coloquei as luvas e eu já estava com o cachecol. Cochilei um pouco, sempre sentado, e continuei com frio. Cobri a minha cabeça com o gorro e a proteção do casaco. Cruzei os braços. Fechei o casaco ao máximo. Olhei para o relógio da parede e ainda eram 2:00. Cochilei. Ainda eram 3:00. Faltavam ainda 3 horas e 41. Que frio! Eu não consguia encontrar uma posição confortável e ficava alternando de posição a cada dez ou vinte minutos. Olhos secos de sono e pesados, mas nenhum sono tranquilo; só muitos cochilos ou momentos de olhos fechados. Foi uma noite péssima. O tempo foi passando e houve um cochilo que foi o mais demorado. Acordei à voz de um cara com sotaque não-francês, aparentemente um sotaque africano ou simplesmente articulava com a boca fechada, que falava com alguém no celular. Na fila de cadeiras do biombo da frente. Eram quase cinco. Ele se reclamava que a moça não tinha lhe buscado. Ele deu um tempo. Mais tarde, cinco e alguma coisa, ele recomeçou a discutir com a moça do telefone (pude ouvir algumas vezes a voz dela). Assim foi até que depois da metade das cinco, ele saiu. Decidi que sairia da sala de espera (para onde não se podia voltar, pois o sistema da porta fechada só permitia a saída) às 06:00. Fui em direção à caixa de refeições para comer a sobremesa que eu tinha deixado. Eu também tinha lanche na mala, mais preferi não abrir. Eu só
queria pegar o mais rápido possível o trem para Limoges. Cerca de menos de vinte minutos antes da seis eu saí, porque vi uns ferroviários conversando lá fora e não queria perder a oportunidade de lhes perguntar onde eu poderia trocar o bilhete. O gentil sujeito, que me pareceu familiar (talvez eu me lembrasse do rosto dele na minha viagem de ida), me disse que eu deveria estar às 06:00 em ponto na central de atendimento para fazer o procedimento de troca. Fui até lá. Quase ninguém na estação. As seis em ponto a central abriu, eu fui o primeiro a entrar da pequena fila de cerca de 5 pessoas que se formou na frente. O procedimento foi bem rápido e já eu tinha o meu novo bilhete com um número de poltrona e tudo. Fui alegremente à plataforma, ficar à espera do trem. Quando eu cheguei lá, o trem também já estava e eu, um pouco traumatizado, comecei a correr para entrar logo, mesmo que faltassem ainda aproximadamente de 40 minutos para a sua partida. Cheguei ao meu lugar, me instalei e tratei logo de me acomodar na poltrona, bem mais confortável e quente do que aquela cadeira dura da sala de espera, para tentar ir dormindo na viagem. Vi também que uma moça da poltrona de trás e do outro lado do corredor e o rapaz da sua frente faziam o mesmo. Nós três tínhamos a poltrona do lado livre, então pudemos ir tranqüilos. Que alívio! Eu bem sabia que eu ia perder a aula, e perder uma aula aqui é uma falta grave, mas eu ainda tinha crédito e o que importava era que aquela agonia tinha terminado.
Não consegui dormir, mas sem dúvida relaxei bastante. Cheguei às 09:31 na Gare de Limoges.
Cansado, mas feliz pelo feito.
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